segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

CRÍTICA POLÍTICA


Diante das reclamações de que prestigiamos demais as declarações de nosso colaborador César Benjamin - e de que isso poderia prejudicar seriamente os nossos futuros contratos de patrocínio com a Petrobrás e o Banco do Brasil - oferecemos aqui uma análise totalmente isenta do escrito de César, realizada pelo ilustríssimo Dr. Maurício Cotia. Conhecido por ser um dos raros intelectuais brasileiros que não tem rabo preso com ninguém, o Dr. Cotia é um cientista político formado pela USP, com PhD em colheita de cana pela Universidade Autônoma de Guantanamo. Atualmente, além de escrever textos totalmente isentos para diversos jornais e revistas, Maurício Cotia trabalha para a prefeitura da Amazônia, implementando o programa "Balsa-família" (que pretende oferecer embarcações para as populações ribeirinhas carentes).

Jânio Quadros, entre uma Pitú e um Ballantines, falou certa vez das "forças ocultas", que levam um homem a sair da panelinha para se jogar no fogo. Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? Só o sombra sabia... O que leva ao desvario de trocar o mamão-com-açúcar pelo osso-duro-de-roer? Não se enganem: César Benjamin não é tão puro quanto parece... seu discurso esconde a torpeza de um homem que - como ele próprio confessa - sempre preferiu viver cercado de marginais. O que o levou a abandonar seus antigos companheiros? A inveja? A vaidade? A gula? A luxúria? A preguiça? A avareza? A ira? Talvez tudo isso! César não esconde o desejo malévolo de "queimar o filme" de seu maior desafeto, de um líder que lutou bravamente contra os poderosos até ficar poderoso, combateu as elites até se tornar a elite da elite, e que enfrenta as megapotências exploradoras do capitalismo selvagem buscando um lugar entre elas para o nosso país. Para mostrarmos a plena verdade, submeteremos o texto de César Benjamin a uma pequena autópsia, em busca de suas motivações esdrúxulas, espúrias e inconfessáveis:

(1) "Deixo de lado os insultos e as versões fantasiosas."
César já começa por excluir elementos, mostrando seu caráter elitista. Temos certeza de que, como um verdadeiro líder aglutinador, o presidente Lula jamais dispensaria ambas as coisas.

(2) "O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral."
Consideração fascista. A Constituição garante o livre direito de circulação, até mesmo para os filmes oportunistas. Se fosse uma obra de Bergman, Visconti ou Kurosawa, César certamente não estaria tão indignado.

(3) "Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante."
Pura falta de conhecimentos históricos! Obviamente, César ignora a campanha de Alexandre o Grande contra a Pérsia.

(4) "Em outros contextos históricos isso deu em fascismo."
E daí? Sabemos que o fascismo sempre garantiu muitos empregos e uma sobrevivência digna para a população, suprimindo as forças negativas e reacionárias. Neste aspecto, é mais do que legítimo que Lula se espelhe em grandes estadistas, em líderes populares como Hitler, Stalin e Mussolini, em vez de ficar só copiando o Getúlio Vargas e o FHC.

(5) "O presidente Lula sabe o que faz."
Outra acusação maldosa, dando a entender que nosso líder tem algum envolvimento ativo nos recentes escândalos que tanto divertiram a população. Com todas as suas grandes responsabilidades, nosso presidente nem sempre pode tomar conhecimento de tudo aquilo que ele faz.

(6) "A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional".
Isso é uma ofensa ao grande gênio de Oscar Niemeyer. O Congresso foi construído no mais puro concreto armado e se prepara, inclusive, para gastar algumas dezenas de milhões em uma reforma da sua fachada e na troca dos tapetes persas.

(7) "Não existem mais partidos."
E isso é negativo? Será que o consenso e a harmonia são pecados tão graves, meu caro César? Se todas as forças políticas têm os mesmos interesses, fica mais fácil alcançar os grandes objetivos da nação, sejam eles quais forem. Se todos querem a mesma coisa: o poder, nada mais legítimo do que loteá-lo. Temos, sim, é que exaltar a abnegação de partidos como o PMDB e o PTB, que estão sempre dispostos a opoiar incondicionalmente todo e qualquer governo.

(8) "A política ficou diminuída..."
Trata-de de uma óbvia alusão preconceituosa à estatura pouco favorecida do nosso presidente...

(9) "Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB."
Claro! Está faltando o seu partido, não é? E com isso cai a máscara de bom-mocismo e surge a face de um homem cheio de preconceitos, que não admite que o poder supremo possa ser exercido por pessoas ignorantes, grosseiras, pobres de espírito, gananciosas e incompetentes. Pois saiba, Sr. César, que essa é a cara do nosso povo, que se orgulha de ter um presidente feito à sua imagem e semelhança.

MAURÍCIO COTIA

POR QUE AGORA?


NOTA DOS ILUMINISTAS: Não temos dúvida de que Deus vai castigar César Benjamin por causa desses artigos. Porém, Deus deve esperar o fim do seu mandato, em janeiro de 2011, para não prejudicar a campanha da Dilma.


Folha de S. Paulo, 02/12/09


César Benjamin

Deixo de lado os insultos e as versões fantasiosas sobre os “verdadeiros motivos” do meu artigo “Os Filhos do Brasil”. Creio, porém, que devo esclarecer uma indagação legítima: “por quê?”, ou, em forma um pouco expandida, “por que agora?”. A rigor, a resposta já está no artigo, mas de forma concisa. Eu a reitero: o motivo é o filme, o contexto que o cerca e o que ele sinaliza.

Há meses a Presidência da República acompanha e participa da produção desse filme, financiado por grandes empresas que mantêm contratos com o governo federal.
Antes de finalizado, ele foi analisado por especialistas em marketing, que propuseram ajustes para torná-lo mais emotivo.

O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral. Recursos oriundos do imposto sindical -ou seja, recolhidos por imposição do Estado- estão sendo mobilizados para comprar e distribuir gratuitamente milhares de ingressos. Reativam-se salas pelo interior do país e fala-se na montagem de cines volantes para percorrerem localidades que não têm esses espaços. O objetivo é que o filme seja visto por cerca de 5 milhões de pessoas, principalmente pobres.

Como se fosse pouco, prepara-se uma minissérie com o mesmo título para ser exibida em 2010 pela nossa maior rede de televisão que, como as demais, também recebe publicidade oficial. Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante. Ela sinaliza um salto de qualidade em um perigoso processo em curso: a concentração pessoal do poder, a calculada construção do culto à personalidade e a degradação da política em mitologia e espetáculo. Em outros contextos históricos isso deu em fascismo.

O presidente Lula sabe o que faz. Mais de uma vez declarou como ficou impressionado com o belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que narra o impacto dos primeiros filmes na mente de uma criança. “O Filho do Brasil” será a primeira -e talvez a única- oportunidade de milhões de pessoas irem a um cinema. Elas não esquecerão.

Em quase oito anos de governo, o loteamento de cargos enfraqueceu o Estado. A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional. Não existem mais partidos. A política ficou diminuída, alienada dos grandes temas nacionais. Nesse ambiente, o presidente determinou sozinho a candidata que deverá sucedê-lo, escolhendo uma pessoa que, se eleita, será porque ele quis. Intervém na sucessão em cada Estado, indicando, abençoando e vetando. Tudo isso porque é popular. Precisa, agora, do filme.

Embalado pelas pré-estreias, anunciou que “não há mais formadores de opinião no Brasil”. Compreendi que, doravante, ele reserva para si, com exclusividade, esse papel. Os generais não ambicionaram tanto poder. A acusação mais branda que tenho recebido é a de que mudei de lado. Porém os que me acusam estão preparando uma campanha milionária para o ano que vem, baseada em cabos eleitorais remunerados e financiada por grandes grupos econômicos. Em quase todos os Estados, estarão juntos com os esquemas mais retrógrados da política brasileira. E o conteúdo de sua pregação, como o filme mostra, estará centrado no endeusamento de um líder.

Não há nada de emancipatório nisso. Perpetuar-se no poder tornou-se mais importante do que construir uma nação. Quem, afinal, mudou de lado? Aos que viram no texto uma agressão, peço desculpas. Nunca tive essa intenção. Meu artigo trata, antes de tudo, de relações humanas e é, antes de tudo, uma denúncia do círculo vicioso da extrema pobreza e da violência que oprime um sem-número de filhos do Brasil. Pois o Brasil não tem só um filho.

Reitero: o que escrevi está além da política. Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Mas, se quiserem privilegiar uma leitura política, que também é legítima, vejam o texto como um alerta contra a banalização do culto à personalidade com os instrumentos de poder da República. O imaginário nacional não pode ser sequestrado por ninguém, muito menos por um governante.

Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O PODER E A GLÓRIA



Folha de São Paulo, 20 de dezembro de 2009



Marco Antonio Villa


O culto ao presidente Lula chegou a tal ponto que não causará estranheza se alguma edição popular da Bíblia iniciar com: "No princípio, Lula criou...". Inegavelmente, ele é, até este instante, o maior mito da nossa história.
Esse fenômeno nasceu nos anos 70, ainda durante o regime militar. Foi produzido por um conjunto de fatores. De um lado, pela ausência de novas lideranças sindicais, produto da supressão das liberdades pelo regime militar. Por outro, devido à repressão que atingiu o Partido Comunista Brasileiro, além das cisões do final da década de 60. O PCB acabou perdendo espaço no movimento operário. E a pequena influência que manteve foi por meio de alianças com os sindicalistas conhecidos como pelegos.
Foi nesse campo aberto que apareceu Luiz Inácio Lula da Silva, em 1977. Tinha sido eleito, dois anos antes, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Após a divulgação por esta Folha do relatório do Banco Mundial, em que ficou demonstrado que o índice de inflação de 1973 tinha sido manipulado por Delfim Netto, então ministro da Fazenda, Lula iniciou uma campanha pela reposição salarial. Não obteve resultado, mas chamou a atenção da imprensa nacional.
O novo líder operário foi imediatamente adotado por alguns intelectuais de São Paulo. Eles criticavam Vargas, o PCB e o populismo. Ambicionavam participar da grande política, mas não tinham voto.
A eles se somaram os derrotados da luta armada, também sem influência popular, e os membros das comunidades eclesiais de base, da Igreja Católica. Estes últimos obtiveram ampla inserção nos movimentos sociais, que surgiram nos anos 70, mas careciam de formação política sólida.
Sustentado por essas três vertentes, Lula foi incensado como líder popular: antipopulista, anticomunista e católico. Em pouco tempo, transformou-se na maior referência do sindicalismo. As greves de 1978-1980, dirigidas de forma atabalhoada, fizeram a transição de líder sindical para dirigente partidário.
Em 1980, foi um dos fundadores do PT e seu primeiro presidente. Outra vez Lula foi usado como referência de ruptura. O PT seria o primeiro partido de trabalhadores do Brasil, apagando a história de mais de 60 anos dos partidos operários.
Anos antes, os mesmos intelectuais haviam transformaram Lula no primeiro sindicalista "autêntico" do ABC, mas a região teve movimentos grevistas desde a década de 20.
Tudo o que falava era considerado original, sábio. Quando exagerava na dose - como numa entrevista, em 1979, em que elogiou a "determinação" de Adolf Hitler -, era perdoado.
Durante 20 anos participou de cinco eleições. Ganhou uma, em 1986, eleito deputado constituinte. Mesmo assim, o mito não foi abalado. Pelo contrário, os intelectuais do partido transformaram as derrotas em vitórias políticas, sempre encontrando alguma razão para os fracassos.
O processo de construção mítica foi ampliado depois da eleição de 2002. Todos os êxitos do governo foram creditados a ele, e as dificuldades e problemas de difícil resolução a curto prazo foram imputados a uma herança maldita dos governos anteriores, especialmente da presidência FHC. Continuou contando com a colaboração entusiástica de intelectuais. Tudo o que falava ou fazia era considerado extraordinário. Era uma espécie de Espinosa de São Bernardo do Campo.
Na crise do mensalão, o encanto não foi quebrado. Tudo teria sido tramado pela imprensa golpista. Mais uma vez, a figura de Lula era o divisor de águas. O caixa dois teria sido colocado de ponta-cabeça. Os destinatários dos recursos não contabilizados seriam o partido e a campanha. Era a corrupção positiva, companheira.
Com a reeleição, o mito chegou ao auge. Ultrapassou as fronteiras nacionais. O ufanismo entrou na ordem do dia. O delírio do presidente que foi ungido em Caetés para libertar o Brasil tomou conta do noticiário. Como nas ditaduras do "socialismo real", o presidente foi considerado infalível. Se Stálin, pouco antes de morrer, dissertava sobre linguística, Lula passou a explicar até as variações climáticas.
Porém, como o mito foi construído em vida, corre o risco de o próprio Lula ajudar a destruí-lo. Se perder a eleição de 2010, terá de descer do Olimpo. As críticas à sua liderança irão crescer, inclusive dentro do PT.
Há muito deixou de ouvir contestações e negativas dos que o cercam. Os áulicos só dizem sim. O todo-poderoso voltará ao mundo real. O mito vai resistir?

MARCO ANTONIO VILLA, 54, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".

O CULTO DA IMATURIDADE



Nelson Rodrigues

Está sendo representada, em São Paulo, a minha "farsa irresponsável", Viúva, porém honesta. O autor é velho, a peça é velha e há personagens bem idosos, e, eu diria mesmo, gagás. Um desses personagens, clínico famoso, chega a dizer: - "Estou na idade em que os médicos começam a vender amostras". O leitor pode imaginar uma velhice unânime, a tropeçar nas cadeiras do cenário.
Nem tanto, nem tanto. Alguém se salva da esclerose abjeta, quase unânime. Refiro-me ao "jovem diretor" Líbero Ripoli Filho. Foi com maliciosa intenção que eu coloquei aspas na sua juventude. Em nossa época, ser ou não ser jovem, eis a questão. Na minha infância, o jovem tinha vergonha de o ser. Todo mundo queria ser velhíssimo. E havia casos, como o do Conselheiro Rui Barbosa, de septuagenários natos.
Em nossos dias acontece exatamente o inverso. Diz-se "o jovem" como se diria "o engenheiro", "o arquiteto", "o médico", "o advogado", "o magistrado", etc. etc. Há também, por toda parte, o "Poder Jovem". E conheço um rapaz, dentista, que mandou fazer assim o seu cartão de visitas:
- "Zezinho dos Anzóis Carapuça", e, por baixo, em tipo maior, estava escrito: - JOVEM.
Para o nosso tira-dentes era mais funcional ser jovem do que dentista.
Por aí se vê que o culto da personalidade foi substituído, em boa hora, pelo culto da idade. Minto. Não é bem assim. O que há, em todos os idiomas, é "o culto da imaturidade". O nosso tempo exige das pessoas plena imaturidade.
Não pensem que exagero. Neste final de século, a Imaturidade é a musa perfeita, sereníssima, universal. E aqueles que, por azar, atingiram a maturidade, trataram de assumir atitudes de ginasiano em gazeta. Se o dr. Alceu for visto jogando bola de gude com os moleques, ou brincando de amarelinha, não me admirarei nada, nada. Seria uma maneira de parecer jovem ou, na pior das hipóteses, espiritualmente jovem. Do mesmo modo, D. Hélder. Se o querido arcebispo pular muros para roubar goiabas - ficaremos encantadíssimos com a sua imaturidade.
Bem. Fiz toda a reflexão acima para voltar ao Líbero Ripoli Filho. O fato de ser ele um "jovem diretor" já desencadeou em mim um processo de pânico. Desgraçadamente, não tenho, como vários sacerdotes meus conhecidos, o "culto da imaturidade". Claro que o jovem Líbero podia ser um Rimbaud. Aos dezessete anos, Rimbaud já era Rimbaud.
Eu não o conhecia pessoalmente, senão de informação. Tremi quando soube que seguia a mesma linha, exatamente, do José Celso. Sou amigo e admirador deste último. Mas a sua direção nada tem a ver com o autor, nem com o teatro. Como o Vianinha, o nosso Zé Celso acha que só a platéia existe. Em suma: - para ele e o Líbero o mistério teatral reduz-se a duzentas senhoras gordas comendo pipocas.
Dirá o leitor: - "É uma idéia". E eu concordo. "É uma idéia". Mas aí começa o cavo e afetuoso abismo entre mim e o Zé Celso, entre mim e o Ripoli. Assim como o Zé Celso acha que o espetáculo nada tem a ver com o autor, eu entendo que o teatro nada tem a ver com a platéia. Só reconheço na platéia uma função estritamente pagante. Não devia ter nem o direito do aplauso. O aplauso já me parece uma exorbitância.
Vou um pouco mais longe: - também acho que, por causa da platéia, o teatro é a mais incriada das artes. Mesmo os maiores poetas dramáticos escrevem para a platéia. A rigor, não existe o autor dramático absoluto, já que todos aceitam a co-autoria das duzentas senhoras gordas. Elas não sabem de nada, não entendem de nada, não pensam nada. Mas o espetáculo é feito para elas e, repito, feito à sua imagem e semelhança. E, porque existe uma co-autoria bastarda, o teatro ainda não conseguiu ser arte.
Até que estreou, em São Paulo, Viúva, porém honesta. As primeiras notícias pareciam justificar os meus terrores. A primeira informação foi a de Osmar Pimentel, admirável espírito, homem de lucidez prodigiosa. Em carta a um amigo, Dr. Thalino, fala o nosso Osmar dos "jovens diretores" que, "misturando Brecht com Chacrinha, confundem comunicação, em arte, com a participação física do auditório no cricri da encenação". Entre parênteses, nada tenho a objetar contra o Chacrinha. Digo mais: - Chacrinha, como tal, é um artista maravilhoso. Ao mesmo tempo, tenho que reconhecer o óbvio, isto é, que José Celso ou Ripoli não podem fazer Chacrinha com Shakespeare, ou Ibsen, ou Sófocles.
Em seguida, leio a crítica do Sábato Magaldi. Ora, nem a cambaxirra tem uma estrutura tão doce quanto o Sábato. Até sua restrição é um arrulho. E ele tem o medo, o remorso, a vergonha, a pena de não gostar. Apesar de todo o seu escrúpulo crítico e de toda a doçura de sensibilidade, sentese que o Sábato achou abominável o espetáculo. Não chega a tanto, mas a insinuação é límpida.
No próprio Jornal da Tarde, onde o Sábato escreve, está dito tudo. Antes de ser mostrada ao público, Viúva, porém honesta teve quarenta representações para estudantes. E, durante o espetáculo, em plena ação, os personagens desciam para a platéia e corriam bandejas com sanduíches, salgadinhos, Coca-Colas, guaranás, guardanapos de papel. Os estudantes não queriam outra vida. No Rio, fechava-se o Calabouço; em São Paulo, abria-se outro Calabouço. Em suma: - eu sou o novo Calabouço, eu!
Eu falara nas duzentas senhoras comendo pipocas. Era uma metáfora. Mas vem o Líbero e transforma a metáfora em realidade concreta, sim, em realidade de comer. Comia-se a realidade com direito a Coca-Cola e guaraná. Só que as pipocas foram substituídas por sanduíches. E os estudantes, nas primeiras representações, tomaram o lugar das gorduchas.
Pelo amor de Deus, ninguém pense que eu esteja aqui fazendo uma restrição intelectual ao Zé Celso e ao Líbero. De modo algum. São inteligentes, modernos, revolucionários. Mas o mal reside, precisamente, em tais méritos, em tais virtudes. A inteligência está liquidando o teatro brasileiro. Daqui por diante, só darei uma peça minha ao diretor que provar a sua imbecilidade profunda.

OPÇÕES QUE DEFINEM UMA EXISTÊNCIA


Rosa Luxemburgo ou Vanderlei Luxemburgo?

Karl Marx ou Groucho Marx?

Wilhelm Reich ou o Terceiro Reich?

Lula: presidente ou ao vinagrete?

CHARADA CINEMATOGRÁFICA


Se juntássemos o filme da Bruna Surfistinha com "Lula, o filho do Brasil", qual seria o resultado?

Uma pornochanchada!

COVIL PROPÕE NOVO FERIADO EM JANEIRO


Dia Nacional da
Consciência Corrupta


Compre essa idéia!!!!!

O PRÓXIMO PASSO DA NOVA ELITE


Depois da reforma ortográfica, agora Lula quer transformar o português em uma língua "latrina"

AS SABEDORIAS DA OLIVINHA


Colaboração sem compromisso: Friedrich Nietzsche

Aquilo que nós fazemos nunca é compreendido, é apenas louvado ou censurado.

Com o risco de escandalizar os ouvidos inocentes, tenho como certo que o egoísmo pertence à essência das almas nobres; quero afirmar esta crença imutável de que um ser tal como "nós somos" deve submeter outros seres, outros seres devem sacrificar-se por ele.

O verdadeiro homem quer duas coisas: o perigo e o jogo. Por isso ele ama a mulher: o mais perigoso dos jogos.

O verme pisado se encolhe. Essa é a sua sabedoria. Fazendo isso diminuem as probabilidades de voltar a ser pisado. No idioma da moral, isso se chama humildade.

Imprimamos o selo da eternidade em nossa vida! Este pensamento contém mais que todas as religiões que desprezam a vida como passageira e fazem olhar para outra vida incerta.

Viver é inventar.

Os grandes homens são os que mais sofrem durante a sua vida, mas têm ao mesmo tempo as maiores compensações.

Nossas paixões são a vegetação que cobre a rocha nua dos fatos.

És escravo? Então, não podes ser amigo de ninguém. És tirano? Então, ninguém pode ser teu amigo.

Aquele poeta escreveu em sua porta: "Aquele que aqui entrar me dará uma honra; aquele que não entrar me proporcionará um prazer".

Te castigam pelas tuas virtudes. Só perdoam sinceramente os teus erros.

Criar: este é o grande alívio para a dor e o que torna fácil a vida.

A resolução cristã de considerar o mundo feio e mal fez com que o mundo se tornasse feio e mal.

sábado, 19 de dezembro de 2009

ENGANE A SI MESMO COM ESTAS DIVERTIDAS ILUSÕES DE ÓPTICA




A MARAVILHOSA HISTÓRIA DAS PORCENTAGENS


No início, o mundo tinha 0% de existência. Porém, Deus, que dispunha de 100% do poder, resolveu que valia a pena investir seus lucros excedentes na criação. Sua primeira medida, após a subtração incondicional do nada, foi separar a terra e o céu, numa divisão de 50%. Depois, ele separou as terras das águas, mas não estava mais tão igualitário e deixou que a parte líquida ficasse com 75% do nosso planeta.
Quando havia completado cerca de 85,714285% de sua tarefa criadora, Deus resolveu fazer o homem, um boneco de lama seca que representava 0,00000000000000000000000000000000001% da natureza, mas que conseguiu o privilégio de comandar os outros 99,99999999999999999999999999999999999% (dando origem a um estado de coisas que ainda hoje quase todos nós conhecemos muito bem). Mas, embora dispusesse de 100% de tudo o que existia, Adão andava triste (provando que o ser humano nunca está mesmo satisfeito com nada).
Assim, Deus decidiu motivá-lo, desfazendo o monopólio e criando para ele uma concorrente, Eva, que ficasse com 50% de todo o mercado, a fim de que ele pudesse sentir que ainda havia algo para ser conquistado. Privado subitamente de metade daquilo que possuía, Adão obviamente não ficou nada satisfeito. Porém, Deus tinha 100% de sabedoria e tomou logo duas providências: em primeiro lugar, deu a Adão a possibilidade de associar-se com Eva na qualidade de acionista majoritário; depois, decretou que, em caso de rompimento da sociedade, Adão teria que dar mensalmente a Eva 30% de tudo aquilo que ele tinha ou que porventura viesse a ganhar.
Porém, a sensação de felicidade de Adão durou pouco, já que Eva - 100% curiosa, como 100% das mulheres - aceitou o convite para comer um certo fruto e quis partilhá-lo com seu marido, o que ocasionou a mais grave divisão da proto-história da humanidade. Da falência da perfeição inicial, surgiram então o bem e o mal, ficando cada um com 50% de domínio sobre as ações e sentimentos dos seres humano (embora essa porcentagem varie bastante, chegando a extremos absolutamente surpreendentes).
Perdendo boa parcela da confiança divina, Adão e Eva foram expulsos para todo o sempre do paraíso e passaram a ter que lutar 100% do tempo pela própria sobrevivência, como qualquer microempresário. Para complicar as coisas, Eva pegou a mania da multiplicação e logo reduziu Adão à condição de 25% da humanidade, tendo dois filhos. Mesmo não sendo 100% feliz - como nos tempos em que não dava duro e tinha a garantia de viver eternamente - Adão ia levando a sua vidinha, com o consolo de poder dividir suas misérias com Eva, Caim e Abel.
Porém, o jovem Caim apresentava sérios distúrbios de comportamento, principalmente porque não se conformava com o fato de que Deus tivesse uma certa preferência majoritária por seu irmão Abel (um rapaz tão esperto que já era pastor antes do surgimento das igrejas evangélicas). Convencido de que a Divindade não repartia igualmente os seus favores, ele pode ser considerado legitimamente como a primeira liderança camponesa a ter lutado por justiça social (assim como também o primeiro adolescente problemático).
Já naquela época, Deus impunha um dízimo aos seus fiéis, e Caim - rigoroso com suas obrigações - levava para o Senhor exatíssimos 10% de tudo aquilo que era colhido em suas plantações, subtraindo-se assim da cólera divina. Porém, muito mais malandro - tanto que parecia ter puxado à serpente, e não aos seus pais - Abel levava para Deus uma porcentagem um pouco maior dos seus rebanhos, sabendo que todo superior sempre gosta que seus subordinados façam mais do que teriam a obrigação de fazer por eles.
Não suportando mais a desigualdade de tratamento, Caim perdeu a cabeça e assassinou seu irmão, reduzindo a humanidade em 25% do seu total (o que, em termos percentuais, o transforma no maior genocida de todos os tempos). Porém, seu crime não poderia ficar impune (ou até poderia, se ele vivesse nos dias atuais e tivesse algum dinheiro e influência) e Deus - ao mesmo tempo despeitado com a perda de seu favorito e do dízimo e cheio de remorsos (com a consciência de que havia sido o maior responsável pelo crime) - surgiu, ordenando com sua voz trovejante:
- Ó, Caim! Tu conseguiste aumentar em 8,333% a tua participação acionária na sociedade humana. Porém, foste marcado com 100% de infâmia e deves partir, para recomeçares tua empresa dos 0%!
Muito assustado e estúpido - por não perceber que não havia mais ninguém no mundo, além dos seus pais, para abominar seu crime - Caim fugiu para não ser apanhado em flagrante (dando origem a um hábito ainda muito em voga entre os nossos criminosos mais respeitáveis).
Desde então, muitos anos se somaram nos calendários e a humanidade multiplicou-se de maneira assombrosa, inspirada no exemplo de Eva. Porém, Caim também marcou seus descendentes com um fortíssimo espírito de divisão, transformando a aventura do homem numa autêntica batalha entre as quatro operações, na qual a única coisa 100% garantida é que não temos nenhuma chance de vitória.

HITLER ERA PAGODEIRO!!!

Escavações arqueológicas realizadas nas ruínas do antigo Reichstag acabam de revelar mais uma faceta desconhecida do célebre chanceler e maluco austro-alemão. Antes de tentar dominar o mundo com seus exércitos de autômatos movidos à repolho fermentado, Adolf Hitler planejara conquistar os corações da massa compondo alguns pagodes cheios de suingue e de manemolência (ou seria malevolência?). Infelizmente, o fracasso dessa idéia genial - já que o gênero só viria a fazer sucesso muitas décadas depois, num distante rincão da América do Sul - levou o músico frustrado a desviar a sua sede de maldade para o mundo da política, onde ele andou desafinando. Publicamos agora uma pequena amostra totalmente inédita do material liberado pela equipe de pesquisadores.


FUI CABECEAR E FUREI A BOLA

Quando eu casei com essa nêga
Achei que estava sozinho
Mas ela me deu um drible
Casou também com o vizinho

Com o chaveiro, com o padeiro
Com o gerente da pensão
E até pra manicure
Ela deu a sua mão

Mas que nêga vagabunda
Eu nunca dou mesmo sorte
Ela gosta de tourada
Me põe chifre por esporte

Minha turma da pelada
Não quer mais que eu apareça
Pois furei todas as bolas
Só com um toque de cabeça

Tirei meu time de campo
Nesse jogo, e é sem retorno
Achava que era o cartola
Mas tava jogando de corno. (bis)


ADOLF HITLER

VERDADES FUNDAMENTAIS

O brasileiro gosta de moleza,
mas nem assim consegue se dar bem!!!

CÉSAR BENJAMIN HOMENAGEADO

Flagrante de um recente churrasco promovido pelas esquerdas brasileiras, no qual o convidado de honra foi o nosso amigo e colaborador César Benjamin.

Depois do churrasco, César relaxa na companhia de
alguns antigos camaradas de militância.


Jazigo da poesia (4)

Um novo poeta junta-se ao nosso curral de talentos: o jovem menestrel Tristão de Ataúde, cantor da energia orgônica e dos vegetais orgânicos:

ODE À VIDA

Meio morto vivo – torto
Consumido lentamente
Emboloro-me
É mesmo uma pena
Jamais testemunharmos a própria morte
Qual a graça em tanto esforço
Na labuta do lento aniquilamento
Se não podemos assistir à coroação final?
Grande repasto dos abutres, insetos, vermes, fungos e bactérias
Enfim, adubo – húmus da terra
Enfim, a vida!

TRISTÃO DE ATAÚDE

Dissidências do PT apoiam César Benjamin

ENQUETE

Como devem ser chamados os padres que comem criancinhas?

A) Canibais

B) Pedófilos

C) Comunistas

D) Reverendíssimos

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

DICIONÁRIO DO DIABO (Ambrose Bierce)

Amizade = Barco bastante grande para carregar dois quando faz bom tempo, mas apenas um só em caso de tormenta.

Cleptomaníaco = Ladrão rico.

Comércio = Espécie de transação na qual A rouba de B os bens de C; e, em compensação, B subtrai do bolso de D o dinheiro pertencente a E.

Conhecido = Pessoa que conhecemos bastante bem para pedir-lhe dinheiro emprestado, mas não suficientemente bem para emprestar-lhe.

Corporação = Engenhoso artifício para obter ganhos individuais sem responsabilidade individual.

Corsário = Político dos mares.

Felicidade = Sensação agradável que nasce de contemplar a miséria alheia.

Filosofia = Caminho com muitos atalhos, que leva de parte alguma a nada.

Homeopata = Humorista da medicina.

Imigrante = Pessoa inculta que pensa que um país é melhor que outro.

Mão = Instrumento singular que se usa no extremo de um braço humano, e que geralmente se encontra metida em um bolso alheio.

Mendigo = Alguém que confiou na ajuda dos amigos.

Moda = Déspota a quem os sábios ridicularizam e obedecem.

Mulato = Filho de duas raças, que se envergonha de ambas.

Paciência = Forma menor do desespero, disfarçada de virtude.

Panteísmo = A doutrina de que tudo é Deus, por oposição à doutrina de que Deus é tudo.

Política = Conflito de interesses disfarçado de luta de princípios. Manejo dos interesses públicos em proveito privado.

Prazer = A forma menos detestável do tédio.

Religião: Filha do temor e da esperança, que vive explicando à ignorância a natureza do incognoscível.

Trabalho = Um dos processos por meio dos quais A adquire bens para B.

Velhice = Época da vida em que transigimos com os vícios que ainda amamos, repudiando os que já não temos a audácia de praticar.

CÉSAR BENJAMIN RECEBE APOIO DE LIDERANÇAS DA ESQUERDA

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

POLÍTICA INTERNACIONAL

Obama e Lula encontram-se para discutir o aquecimento global

Jazigo da poesia (III)


ACABOU, MAS AINDA TEM...

(Reflexões existenciais de um bunda-mole)

Quando eu nasci, um diabo torto
Gritou: Tu já estás morto!
Respiras, mas és aborto
E a vida nunca terás!


Olhando sempre pra frente

Futuro nenhum verás
Além do nada passado
Para o qual retornarás

Com teu cadáver passeia
Enquanto estás insepulto
Mas logo haverá tumulto
De vermes pra te pastar

Decerto, já estás podre
Embora a cova recuses
Ao menos, da vida uses
Em vez de desperdiçar

Como Diabo dou conselho
Faço reta previsão
Mas deixo-te a decisão
De tudo na vida errar

Vai, meu pobre condenado

Ser mais um merda no mundo!

Te espero lá, bem no fundo

Quando a vida te cagar...


MEFISTÓFELES GOMES

AS SABEDORIAS DA OLIVINHA


Participação especial: Friedrich Nietzsche

Abomino aqueles que vêem toda inclinação natural como doentia e vergonhosa.


Viver quer dizer lançar constantemente para longe de si aquilo que tende a morrer; viver quer dizer ser cruel e inexorável com tudo o que há de débil e de envelhecido em nós, e não só em nós. Será, então, que viver é ser impiedoso com os agonizantes, os miseráveis e os velhos? Ser constantemente um assassino? E, no entanto, o velho Moisés disse: "Não matarás!"

O segredo para se ter una existência fecunda e feliz está em viver perigosamente.

Sejamos poetas da nossa vida, especialmente nos detalhes pequenos e sem importância!

Não se pode examinar tudo em profundidade; isso faz com que devamos forçar constantemente a vista e nos leva a encontrar mais do que desejávamos.

Alguém só é verdadeiramente livre quando deixa de sentir vergonha de si mesmo.

Conheço melhor a vida por ter estado muitas vezes a ponto de perdê-la.

A solidão absoluta me parece cada vez mais a minha fórmula essencial, minha paixão fundamental; cabe a nós provocar este estado, no seio do qual criamos nossas obras mais formosas, e é preciso saber sacrificar-lhe muitas coisas.

Penso que quem sofre não pode se permitir a ser pessimista.

No preciso momento em que um homem se convence a fundo de que deve receber uma ordem, ele passa a ser um crente.

Um autor sensato escreve para a sua velhice, para poder alegrar-se consigo mesmo quando chegar a ela.

O inseto não pica por maldade, mas para viver. O crítico faz o mesmo: ele deseja o nosso sangue, não a nossa dor.

O homem profundo é visto como comediante, porque, para ser compreendido pelos demais, deve simular superficialidade.

A pessoa que sabe que é profunda faz um esforço para ser clara. A que quer parecer profunda diante dos demais faz um esforço para ser obscura. Isso se deve ao fato de que a massa considera profundo aquilo de que ela não pode ver o fundo: tem muito medo de se afogar!

Tudo o que é bom estimula a vida, inclusive um bom livro contra ela.

A fé nunca pôde derrubar montanhas, como vulgarmente se afirma. Pelo contrário, é capaz de colocar montanhas onde elas não existem.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Jazigo da poesia (II)


NÃO SE DUVIDA DO INDUBITÁVEL

Subindo para cima de uma escada
Para contemplar melhor a luz do dia
Vi que essa luz a tudo iluminava
A não ser quando a noite aparecia

Enquanto olhava, estava eu à direita
De quem olhando à minha esquerda estava
E quando nada por ali mexia
Imóvel tudo por ali ficava

O sol, um grande círculo redondo
Com seu calor o frio esquentava
E quando pela tarde ia se pondo
Por coincidência, a noite então brotava

O homem, essa humana criatura
Com seus olhos abertos espiava
À espera do futuro que viria
E nunca que o futuro lhe chegava

Percorrendo uma estrada que levava
De uma ponta a outra ponta do caminho
O homem com seus próprios pés andava
Não ia com ninguém, ia sozinho

A coisa que não tinha, lhe faltava
Mas se fosse demais, lhe sobraria
Num rio cheio dágua se banhava
Sabendo que amanhã era outro dia

E o que de mais real se constatava
É que antes de estar morto ele vivia
E era tudo aquilo que restava
Pois depois de morrer já não podia...

MEFISTÓFELES GOMES

Jazigo da poesia


Dentro do nosso projeto de dominar a internet, temos o prazer de apresentar o nosso novo colaborador, o poeta paulistano Mefistófeles Gomes, conhecido mundialmente como "O vate da Padoca".

ÁRVORE GENEALÓGICA

Eu tenho um dedo de sangue espanhol
Está num vidrinho, cheio de formol
Sei que não sou mato, mas tenho raízes
Descendo de belas, gentis meretrizes
Todo preconceito é um bem cultural
Pois ser diferente é sempre anormal
Quando penso em todos os grandes desastres
Pressinto que os homens não passam de trastes
E a humanidade é uma idéia falhada
Começa com drama e termina em piada
Vulgar é a idéia que mais se espalha
Fazendo o gosto de toda a canalha
Exprime-se o nada por coisa nenhuma
E de mil idéias, não se tira uma
Razão é um slogan de publicidade
Tentando vender-nos a humanidade
Como um produto de autofagia
Que evoca alguma ideal nostalgia
De tempos que nunca existiram de fato
Quando este produto ainda era barato
Mas hoje que o preço subiu de verdade
Pagamos com os restos da realidade.

MEFISTÓFELES GOMES

domingo, 13 de dezembro de 2009

Em breve, neste blog, a biografia do Rei dos Artistas



Minha vida cheia de mim!!!

Confirmado: Nosso blog é o menos visto da web!!!

Agora é oficial! Dados do sistema "Sitemeter" atestam a dimensão do nosso sucesso popular.

Covil dos iluministas
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

CHAMFORT - Máximas e pensamentos



Alguns trechos da nossa mais recente publicação:

Ocorre com o valor dos homens o mesmo que com o dos diamantes, que, até uma certa medida de tamanho, de pureza e de perfeição, têm um preço fixo e determinado. Mas para além dessa medida, deixam de ter um preço e não encontram nenhum comprador.


O filósofo que deseja extinguir as paixões se assemelha ao alquimista que quisesse apagar o seu fogo.

Os flagelos físicos e as calamidades da natureza humana tornaram a sociedade necessária. A sociedade aumentou as infelicidades da natureza. Os inconvenientes da sociedade levaram à necessidade do governo, e o governo aumentou as infelicidades da sociedade. Eis aí a história da natureza humana.

O homem pobre, mas independente dos homens, está apenas sob as ordens da necessidade. O homem rico, mas dependente, está sob as ordens de um outro homem ou de vários.

O que é um filósofo? É um homem que opõe a natureza à lei, a razão ao costume, sua consciência à opinião e seu juízo ao erro.

Justiça divina


"Deus não criou o homem? Então, é mais do que justo que ele receba os 10% por conta dos direitos autorais"

Jóias anônimas da filosofia brasileira


"Não concordo com uma só palavra do que tu dizes, mas defenderei até a tua morte o meu direito de te torturar até que tu mudes de idéia"

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

LULA, O PARRICIDA


Advertência dos Iluministas: Este texto está sendo publicado aqui provisoriamente. Ele deve ser substituído, se "alguém" for esperto, por um banner da Petrobras ou do Banco do Brasil ou de quem chegar primeiro. Quase tudo o que este texto contém é ficção, a começar pelo presidente.


Folha de S. Paulo, 27/11/09

Os filhos do Brasil

César Benjamin

A PRISÃO na Polícia do Exército da Vila Militar, em setembro de 1971, era especialmente ruim: eu ficava nu em uma cela tão pequena que só conseguia me recostar no chão de ladrilhos usando a diagonal. A cela era nua também, sem nada, a menos de um buraco no chão que os militares chamavam de “boi”; a única água disponível era a da descarga do “boi”. Permanecia em pé durante as noites, em inúteis tentativas de espantar o frio. Comia com as mãos. Tinha 17 anos de idade.
Um dia a equipe de plantão abriu a porta de bom humor. Conduziram-me por dois corredores e colocaram-me em uma cela maior onde estavam três criminosos comuns, Caveirinha, Português e Nelson, incentivados ali mesmo a me usar como bem entendessem. Os três, porém, foram gentis e solidários comigo. Ofereceram-me logo um lençol, com o qual me cobri, passando a usá-lo nos dias seguintes como uma toga troncha de senador romano.
Oriundos de São Paulo, Caveirinha e Português disseram-me que “estavam pedidos” pelo delegado Sérgio Fleury, que provavelmente iria matá-los. Nelson, um mulato escuro, passava o tempo cantando Beatles, fingindo que sabia inglês e pedindo nossa opinião sobre suas caprichadas interpretações. Repetia uma ideia, pensando alto: “O Brasil não dá mais. Aqui só tem gente esperta. Quando sair dessa, vou para o Senegal. Vou ser rei do Senegal”.
Voltei para a solitária alguns dias depois. Ainda não sabia que começava então um longo período que me levou ao limite.
Vegetei em silêncio, sem contato humano, vendo só quatro paredes -“sobrevivendo a mim mesmo como um fósforo frio”, para lembrar Fernando Pessoa- durante três anos e meio, em diferentes quartéis, sem saber o que acontecia fora das celas. Até que, num fim de tarde, abriram a porta e colocaram-me em um camburão. Eu estava sendo transferido para fora da Vila Militar. A caçamba do carro era dividida ao meio por uma chapa de ferro, de modo que duas pessoas podiam ser conduzidas sem que conseguissem se ver. A vedação, porém, não era completa. Por uma fresta de alguns centímetros, no canto inferior à minha direita, apareceram dedos que, pelo tato, percebi serem femininos.
Fiquei muito perturbado (preso vive de coisas pequenas). Há anos eu não via, muito menos tocava, uma mulher. Fui desembarcado em um dos presídios do complexo penitenciário de Bangu, para presos comuns, e colocado na galeria F, “de alta periculosia”, como se dizia por lá. Havia 30 a 40 homens, sem superlotação, e três eram travestis, a Monique, a Neguinha e a Eva. Revivi o pesadelo de sofrer uma curra, mas, mais uma vez, nada ocorreu. Era Carnaval, e a direção do presídio, excepcionalmente, permitira a entrada de uma televisão para que os detentos pudessem assistir ao desfile.
Estavam todos ocupados, torcendo por suas escolas. Pude então, nessa noite, ter uma longa conversa com as lideranças do novo lugar: Sapo Lee, Sabichão, Neguinho Dois, Formigão, Ari dos Macacos (ou Ari Navalhada, por causa de uma imensa cicatriz que trazia no rosto) e Chinês. Quando o dia amanheceu éramos quase amigos, o que não impediu que, durante algum tempo, eu fosse submetido à tradicional série de “provas de fogo”, situações armadas para testar a firmeza de cada novato.
Quando fui rebatizado, estava aceito. Passei a ser o Devagar. Aos poucos, aprendi a “língua de congo”, o dialeto que os presos usam entre si para não serem entendidos pelos estranhos ao grupo.
Com a entrada de um novo diretor, mais liberal, consegui reativar as salas de aula do presídio para turmas de primeiro e de segundo grau. Além de dezenas de presos, de todas as galerias, guardas penitenciários e até o chefe de segurança se inscreveram para tentar um diploma do supletivo. Era o que eu faria, também: clandestino desde os 14 anos, preso desde os 17, já estava com 22 e não tinha o segundo grau. Tornei-me o professor de todas as matérias, mas faria as provas junto com eles.
Passei assim a maior parte dos quase dois anos que fiquei em Bangu. Nos intervalos das aulas, traduzia livros para mim mesmo, para aprender línguas, e escrevia petições para advogados dos presos ou cartas de amor que eles enviavam para namoradas reais, supostas ou apenas desejadas, algumas das quais presas no Talavera Bruce, ali ao lado. Quanto mais melosas, melhor.
Como não havia sido levado a julgamento, por causa da menoridade na época da prisão, não cumpria nenhuma pena específica. Por isso era mantido nesse confinamento semiclandestino, segregado dos demais presos políticos. Ignorava quanto tempo ainda permaneceria nessa situação.
Lembro-me com emoção - toda essa trajetória me emociona, a ponto de eu nunca tê-la compartilhado - do dia em que circulou a notícia de que eu seria transferido. Recebi dezenas de catataus, de todas as galerias, trazidos pelos próprios guardas. Catatau, em língua de congo, é uma espécie de bilhete de apresentação em que o signatário afiança a seus conhecidos que o portador é “sujeito-homem” e deve ser ajudado nos outros presídios por onde passar.
Alguns presos propuseram-se a organizar uma rebelião, temendo que a transferência fosse parte de um plano contra a minha vida. A essa altura, já haviam compreendido há muito quem eu era e o que era uma ditadura.
Eu os tranquilizei: na Frei Caneca, para onde iria, estavam os meus antigos companheiros de militância, que reencontraria tantos anos depois. Descumprindo o regulamento, os guardas permitiram que eu entrasse em todas as galerias para me despedir afetuosamente de alunos e amigos. O Devagar ia embora.
São Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produção dos programas de televisão da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara à frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.
Nesse contexto, deixei trabalho e família no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sofá, para tentar ajudar. Lá pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato.
Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opiniões sobre o Brasil e o momento da campanha, para então propor uma estratégia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu não queria tratá-lo mal. O primeiro encontro foi no refeitório, durante um almoço.
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.
Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.
Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.
O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.
Dias depois de ter retornado para a solitária, ainda na PE da Vila Militar, alguém empurrou por baixo da porta um exemplar do jornal “O Dia”. A matéria da primeira página, com direito a manchete principal, anunciava que Caveirinha e Português haviam sido localizados no bairro do Rio Comprido por uma equipe do delegado Fleury e mortos depois de intensa perseguição e tiroteio. Consumara-se o assassinato que eles haviam antevisto.
Nelson, que amava os Beatles, não conseguiu ser o rei do Senegal: transferido para o presídio de Água Santa, liderou uma greve de fome contra os espancamentos de presos e perseverou nela até morrer de inanição, cerca de 60 dias depois. Seu pai, guarda penitenciário, servia naquela unidade.
Neguinho Dois também morreu na prisão. Sapo Lee foi transferido para a Ilha Grande; perdi sua pista quando o presídio de lá foi desativado. Chinês foi solto e conseguiu ser contratado por uma empreiteira que o enviaria para trabalhar em uma obra na Arábia, mas a empresa mudou os planos e o mandou para o Alasca. Na última vez que falei com ele, há mais de 20 anos, estava animado com a perspectiva do embarque: “Arábia ou Alasca, Devagar, é tudo as mesmas Alemanhas!” Ele quis ir embora para escapar do destino de seu melhor amigo, o Sabichão, que também havia sido solto, novamente preso e dessa vez assassinado. Não sei o que aconteceu com o Formigão e o Ari Navalhada.
A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o “menino do MEP”. Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos.
O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.
Mesmo assim, não pretendo assistir a “O Filho do Brasil”, que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.

CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

GRANDES CAGADAS DA POESIA NACIONAL


Como, no Brasil, ninguém pode deixar de contribuir com a sua dose de imbecilidade para adubar o solo da nação, o poeta Vinícius de Moraes resolveu liquidar uma garrafa de Black Label e edificar as criancinhas com este refinadíssimo poema, musicado por Toquinho para o CD "Arca de Noé 2".

O PORQUINHO

Vinícius de Moraes

Muito prazer, sou o porquinho
Eu te alimento também
Meu couro bem tostadinho
Quem é que não sabe o sabor que tem
Se você cresce um pouquinho
O mérito, eu sei
Cabe a mim também

Se quiser, me chame
Te darei salame
E a mortadela
Branca, rosa e bela
Num pãozinho quente
Continuando o assunto
Te darei presunto
E na feijoada
Mesmo requentada
Agrado a toda gente

Sendo um porquinho informado
O meu destino bem sei
Depois de estar bem tostado
Fritinho ou assado
Eu partirei
Com a tia vaca do lado
Vestido de anjinho
Pro céu voarei

Do rabo ao focinho
Sou todo toicinho
Bota malagueta
Em minha costeleta
Numa gordurinha
Que coisa maluca
Minha pururuca
É uma beleza
Minha calabresa
No azeite fritinha.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MACHADO DE ASSIS


Aquiles andam por aí que são da cabeça aos pés um imenso calcanhar.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A cegueira ética da humanidade


O Estado de São Paulo, domingo, 1 de março de 2009

O Paradoxo da Moral, de Vladimir Jankélévitch (Ed. Martins Fontes)

Regina Schöpke

Para o filósofo e musicólogo francês Vladimir Jankélévitch (1903- 1985), "o homem é um ser virtualmente ético, que existe como tal, isto é, como ser moral". Mas completa a frase com uma afirmação surpreendente: ele é um ser moral "de tempos em tempos e de longe em longe - de muito longe em muito longe". Sem dúvida, parece haver algum sarcasmo nessas palavras, mas trata-se apenas de simples e lúcida constatação: a de que embora os homens não possam prescindir dos seus valores, a verdade é que passam a maior parte do tempo de suas vidas numa espécie de cegueira moral ou ética, algo que Jankélévitch chama de "eclipses da consciência", "anestesiamento moral". Em outras palavras, o homem vive transigindo com os próprios valores, praticamente alheio aos princípios que diz acreditar: em suma, fala uma coisa e vive outra. Mas basta algo ameaçar o seu castelo de areia e, então, a moral ressurge forte como a guardiã desse homem e da sociedade. "A moral tem sempre a última palavra", diz Jankélévitch.

De fato, nada parece descrever melhor a existência humana do que o eterno conflito, o embate contínuo entre os desejos e as necessidades mais profundas do indivíduo e a vida social, as obrigações e os deveres para com "o outro". Para Jankélévitch, a moral sempre será um problema filosófico, e o primeiro deles, independente de ser chamada de ética ou de qualquer outro nome. Afinal, o homem é um animal social e, nesse sentido, o "outro" (queiramos ou não) estará sempre em nosso horizonte, senão o tempo inteiro, ao menos nos momentos mais drásticos e decisivos. É isso que defende Jankélévitch em seu livro O Paradoxo da Moral. Nele, deparamo-nos não com a exposição de valores morais atemporais, mas com a descrição minuciosa e sensível dos mais profundos dilemas humanos, do desespero diante das difíceis escolhas da vida, do eterno medo de desviar-se das obrigações por causa das paixões e dos prazeres e até mesmo as incertezas de se viver um grande amor, não apenas quando ele se choca com as conveniências sociais, mas pela natureza paradoxal dessa entrega total e atordoante.

Jankélévitch, que ocupou a cadeira de filosofia moral na Sorbonne de 1951 a 1979, usa uma linguagem teológica quando nos fala da vox conscientiae. É assim que descreve esse "outro" em nós, essa voz sem interlocutor ou, simplesmente, a própria consciência "face a face" consigo mesma. E há maior paradoxo do que esse ser cindido, que vê a si próprio (ou pensa se ver)? Num âmbito mais profundo, a consciência é aquela que nos alerta dos perigos, que deseja nos conservar (sobretudo, como seres sociais), que nos lembra das obrigações e deveres. Para Nietzsche, ela é uma espécie de carcereira do homem, e não instrumento que lhe sirva de guia para uma vida plena e real. Shakespeare (no sublime Hamlet) também dizia algo semelhante ao afirmar que é ela que faz de todos nós covardes.

Bem, sendo um conjunto de valores, normas, preceitos, proibições, "palavras de ordem" e ideais, a moral é, no fundo, a voz do campo social e de tal maneira está impregnada em nossa consciência (e inconsciente) que parece mesmo impossível romper com ela. É isso, pelo menos, que pensa Jankélévitch: por mais que nos julguemos livres, os valores que nos constituíram estão sempre agindo sobre nós. Isso é verdade e mais ainda numa moral teológica como a ocidental, que com seu jogo profundo de culpas e remorsos, eleva o drama do indivíduo à enésima potência. O homem, criado dentro dessa moral de renúncias absolutas e sacrifícios pessoais demasiado humanos (diria Nietzsche), não poderia deixar de ser melancólico e confuso. É assim que a sua vida interior, tão bem retratada por Jankélévitch, mostra-se repleta de tormentos, crises de consciência, desesperos profundos e, sobretudo, de pavor diante das paixões e dos prazeres, sempre considerados perigosos para a conservação da vida social.

Mas será mesmo a moral algo inescapável? Será que o "eu" é sempre privado de seus direitos à felicidade ou à liberdade em prol dos "outros"? Sim e não. Claro, somos seres sociais, mas sem felicidade individual também não pode haver felicidade coletiva (e disso entendiam bem os gregos). É verdade que a vida em sociedade exige que o indivíduo ponha o grupo acima de seus desejos mesquinhos e egoístas, mas não de suas necessidades reais, vitais, essenciais; uma moral ou uma sociedade que exige isso age "contranatura", age contra o próprio homem. Eis o que Nietzsche já havia nos mostrado.

Em outros termos, numa moral de renúncia total, o homem torna-se um ser cheio de imposturas e falsidades: eis porque a palavra empenhada e as promessas feitas serão em geral traídas ou cinicamente vividas (porque, no fundo, o homem não consegue e não pode abrir mão completamente dos seus desejos e paixões; ele apenas os viverá de modo hipócrita e atormentado). Se há algo que Nietzsche ensinou de superior a todos os outros filósofos é que tendo sido o próprio homem o criador de seus valores é sempre possível transfigurá-los, recriá-los. No fundo, a diferença capital entre Nietzsche e Jankélévitch é que se, para Jankélévitch, o homem vive anestesiado quando fecha os olhos para a moral que o constituiu, para Nietzsche, a moral acaba se convertendo no próprio anestesiamento do homem quando esses valores estão fundamentados em quimeras e falsos pressupostos.

Jankélévitch conhece bem o homem, conhece a moral de dentro. Mas é Nietzsche quem ensina o caminho da vida sem hipocrisias. Ele faz a guerra contra os valores que nos condenam a viver covardemente, a aceitarmos nossa condição como inexorável, a tratarmos como pecado e tentação o que é parte do nosso ser. Se Jankélévitch fala em elevação moral, Nietzsche fala em elevação real. Afinal, para o filósofo alemão, "elevar-se" significa viver de fato os valores na sua máxima potência, e não só de "tempos em tempos". Mas, para isso, é preciso estar em consonância consigo mesmo e com a vida (e não contra ela). É preciso, antes de qualquer outra coisa, ter coragem de romper as amarras e viver de verdade.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

SER CRIANÇA É UMA MERDINHA!


Tão ruim quanto ser velho é ser criança. Na verdade, é até pior, porque é bem provável que a criança de hoje ainda tenha que ser o velhote gagá de amanhã. Quando é bem pequena, a criança passa quase todo o seu tempo comendo, dormindo, chorando e fazendo caca (às vezes, tudo ao mesmo tempo). Depois, quando vira um adulto, a ex-criança continua fazendo as mesmas coisas, só que algumas às escondidas. A criança que não tem pais quase sempre cresce cheia de complexos e acaba virando psicopata. A criança que é rejeitada ou maltratada pelos pais acaba crescendo cheia de complexos e virando psicopata. Já a criança que é muito mimada pelos pais cresce cheia de complexos e acaba virando bichinha e psicopata. Daí, deduz-se que todo mundo é psicopata, o que está totalmente de acordo com o atual estado da civilização humana. Quando a gente é criança pode fazer quase tudo: andar pelado no meio da rua, cagar no tapete persa e passar a mão na bunda da vizinha. Quando a gente é criança não pode fazer nada, a não ser essas bobagens que foram mencionadas anteriormente. Apesar disso, Freud sustenta que as crianças já têm sexualidade, embora ela só sirva para criar o "complexo de Édipo". Dizem que Freud inventou a psicanálise para poder justificar o seu ódio pelo próprio pai e a vontade de transar com sua mãe. Dá para ver que Freud tinha mesmo muitos problemas, especialmente olhando para algumas fotos da mãe dele. As crianças podem ser afetadas por várias doenças, podem ser atropeladas, atingidas por balas perdidas, sequestradas, abusadas por tarados e adotadas pela Madonna ou pela Angelina Jolie. Se a criança sobrevive a todas essas desgraças, ela se torna adolescente e tudo piora infinitamente, pois ela já não se satisfaz com as coisas infantis e ainda não pode fazer quase nada do que faz um adulto. Numa tentativa de tornar a vida das crianças menos ilusória, os pais modernos enchem os filhos de compromissos e obrigações, para acostumá-los a sofrer desde sempre. A melhor fase da vida de uma criança é a que começa na vida adulta, quando o sujeito pode se lembrar dos tempos de infância sem incluir os momentos de tédio e de sofrimento. Ser criança é como comer merengue: no começo é bom, depois enjoa, mas quando o merengue acaba dá vontade de comer de novo...

RENNANZINHO

terça-feira, 10 de novembro de 2009

AS SABEDORIAS DA OLIVINHA


Participação afetiva: Friedrich Nietzsche

Lutero disse que Deus não subsistiria sem homens sensatos, mas se esqueceu de dizer que ele poderia fazê-lo menos ainda sem os insensatos.

Nossos ouvidos estão abertos unicamente para as perguntas para as quais podemos encontrar respostas.

A solidão absoluta me parece cada vez mais a minha fórmula essencial, minha paixão fundamental. Cabe a nós provocar este estado, no seio do qual criamos nossas mais belas obras, e é preciso saber sacrificar a isso muitas coisas.

Me parece que, para os animais, o homem é um dos seus que perdeu o sentido da existência de uma forma perigosa. Eles o vêem como um excêntrico que ri, que chora e que se consagra à desdita.

Detesto os costumes duradouros. O fato de que uma circunstância se torne algo permanente me faz sentir como se um tirano se aproximasse de mim ou como se a atmosfera ficasse envenenada.

Chamo o meu sofrimento de “cachorro”. É fiel, inoportuno, desavergonhado, gracioso e inteligente como esse animal, e posso discutir com ele e descontar nele o meu mau-humor, tal como os demais fazem com um cachorro verdadeiro, com os seus empregados ou com a sua mulher.

Evidentemente, a minha cabeça não está bem colocada sobre os meus ombros, já que todos sabem melhor do que eu aquilo que eu devo fazer. Talvez sejamos todos como estátuas nas quais foram postas cabeças alheias. E não digo isso para ti, meu próximo, que és uma exceção.

O segredo para ter uma existência fecunda e feliz está em viver perigosamente.

Alguém é verdadeiramente livre quando deixa de sentir vergonha de si mesmo.

Nos encontramos dentro de uma prisão; a única coisa que podemos fazer é crer que estamos livres.

O homem religioso é uma exceção dentro da religião.

A fé nunca pôde remover montanhas, como vulgarmente se afirma. Pelo contrário, ela é capaz de colocar montanhas aonde elas não existem.

domingo, 8 de novembro de 2009

HOMENAGEM AO REI DOS ARTISTAS


Em um dia de grande inspiração, Platão conclamou os homens que – por sua visão clara e precisa das coisas – podiam abandonar a caverna da ignorância, a retornarem para junto de seus irmãos menos afortunados, a fim de guiá-los pelos caminhos da sabedoria. Agora, passados quase 25 séculos, estamos diante de um fato que se repete (ó, bendito eterno retorno!): deixando por momentos o alto de sua morada celeste, nosso venerado Rei volta novamente seus olhos para uma humanidade sedenta de iluminação. Como se um homem comum fôra (e, aqui, não poderíamos deixar de fazer uma analogia com Cristo, outro rei não menos importante), nosso mestre utiliza as páginas de um grande jornal – ainda maior, agora que conta com a sua presença – para mostrar uma luz no fim do túnel para uma arte que vem perdendo sua nobreza original, conspurcada pelos mesquinhos interesses monetários e materialistas. Quando tudo parecia perdido, eis que surge esse Dom Quixote redivivo, com sua pena guerreira sempre pronta a demolir os moinhos de vento da ignorância e do obscurantismo. Sófocles e Ésquilo, Shakespeare e Racine, Nelson Rodrigues e Pernambuco de Oliveira podem sorrir novamente em sua eterna morada, sabendo que as artes cênicas renascem das cinzas graças ao sopro benfazejo de seu novo protetor. Ave Rei, a ribalta te saúda!!!

sábado, 7 de novembro de 2009