
A INCERTEZA COMO MÉTODO
Mauro Baladi
Mauro Baladi
Uma das coisas que separa o homem dos outros seres vivos é a sua capacidade de fabulação, de criação de mitos que recobrem (ou encobrem) uma realidade demasiado insossa ou demasiado cruel. A condição de existência desses mitos é a nossa imaginação, a nossa ignorância e uma certa falta de memória (afinal, criamos os deuses e nos esquecemos disso, passando a crer que eles é que nos criaram).
Um desses mitos é o da “crise das ciências do homem”, que aponta um flagrante descompasso entre as certezas intercambiáveis das ciências matemáticas e as dúvidas cumulativas das ciências “sociais”. A crença de que qualquer conhecimento que não possa ser mensurável e quantificável não é digno de confiança levou a deformações como o positivismo, tábua de salvação para uma filosofia que se viu transformada em uma forma de conhecimento subjetiva e metafísica ou para uma história que se viu reduzida a um gênero literário. Porém, se a dissecação de um cadáver humano não nos traz mais do que o conhecimento do homem “biológico”, se a redução de um corpo humano aos seus elementos químicos não nos oferece muito mais do que água e carbono, é porque existem – em nós – elementos que estão além de toda a objetividade científica. A matemática pode sempre nos garantir, para além do tempo e do espaço, que a soma de dois números pares resultará em outro número par; porém, nenhuma psicologia ou nenhuma genética conseguirá prever todas as ações e reações de qualquer ser humano em todas as circunstâncias. Mesmo a “certeza” e a “verdade objetiva” das ciências matemáticas não passa de um mito, já que os cientistas assumiram – em muitos aspectos – o papel antes reservado aos religiosos, como arautos de uma verdade que pretensamente “vem do alto” e independe da ação humana. O passado da ciência (sempre renegado à categoria de “história”) nos mostra como os erros mais torpes já desfrutaram desse estatuto de verdade. Basta sairmos da superfície para verificar que os próprios fundamentos da ciência estão nesta mesma “crise”, tanto no aspecto da sua evolução (entre a ciência que caminha passo a passo, de Pierre Duhem, e a ciência que dá saltos, de Thomas Kuhn), quanto nos aspectos éticos e morais. Mas a “crise”, ao menos nas ciências humanas, não é um problema que exige solução, e sim uma realidade – muito rica, mas também assustadora – com a qual é preciso conviver, já que os paradigmas não passam, para nós, de parênteses abertos em um devir que nunca se detém.